Dieta Cetogênica x Câncer

No pouco tempo de experiência ambulatorial que tive/estou tendo nesta área desde que iniciei a Residência, tenho sido bastante questionada sobre a influência da dieta cetogênica no auxílio contra o câncer. Muitas pessoas são completamente céticas em relação ao tema, e outros já acreditam fortemente que uma alimentação baseada em lipídeos e proteínas pode ser efetiva no combate à doença. E você? O que pensa sobre isso? Será que a ideia é realmente mirabolante?

A premissa é que o câncer utiliza prioritariamente como fonte energética, a glicose. Sendo assim, a dieta cetogênica, por possuir baixíssimas frações de carboidratos, não forneceria energia (glicose) para as células doentes. Vendo por este lado, pode até parecer que essa explicação faz sentido, não é mesmo?! Ainda mais depois de surgirem estudos que mostram que este tipo de alimentação tem efeitos positivos em doenças epiléticas, sem falar sobre a grande perspectiva estética que vemos por trás de dietas como esta.

Apesar disso, na prática, a história é diferente. Existe uma condição, chamada de “efeito Warburg”, que explica o mecanismo adaptação celular à escassez de nutrientes necessários para sua multiplicação – ou seja, aqui já está um motivo para que a dieta cetogênica caia em contradição, até mesmo para quem está visando somente emagrecimento (sem que haja uma patologia grave por trás dos objetivos). O que eu quis dizer com o “efeito Warburg” é que, mesmo sem a glicose, as células tumorais (e saudável também!) se adaptarão para conseguirem utilizar outros nutrientes como fonte energética.

E tem mais: quem já fez essa dieta pra emagrecer sabe que ela causa alguns sintomas bem evidentes, como:

– Cansaço;
– Fadiga;
– Desânimo;
– Fraqueza;
– Desconforto gastrointestinal;
– Irritabilidade;
– Mau hálito (hálito cetônico)
– Entre outros…

Os sintomas são bem inconvenientes, mas este ponto negativo pode não ser suficiente para as pessoas não adotarem a dieta. A justificativa é simples: para a maioria, o câncer é uma doença fatal e, qualquer coisa que possa ter efeitos positivos sobre a doença, é adotado pelo paciente, na tentativa de tratar a patologia e prolongar o tempo vida.

Bom, temos que ter em mente que existem vários estudos por trás das teorias contempladas pela dieta cetogênica e o tratamento do câncer, então cabe à comunidade científica filtrar o que realmente vale a pena, com o objetivo de promover a saúde sempre!

Em uma perspectiva bem recente (de 2017) publicada em uma revista científica renomada na área de Nutrição (Journal of the Academy of Nutrition and Dietetics), os autores trabalharam com uma revisão de 14 trabalhos publicados nos últimos 30 anos, todos sobre a dieta cetogênica no tratamento do câncer. A maioria destes estudos foram analisados e os resultados mostram que a dieta cetogênica PODE ter efeito positivo em cânceres de cabeça e pescoço, porém é complicado concluir algo consistente, pois os estudos foram realizados concomitantemente com o uso de medicamentos, quimioterapia, radioterapia e/ou outros fatores que influenciam no metabolismo da glicose e gliconeogênese, tais como o uso de corticoides por estes pacientes.

Outro grande problema é que a diferença entre as características dos estudos são determinantes para uma conclusão precisa. Cada estudo foi feito de uma forma diferente (diferentes composições da dieta estudada, diferentes formas de terapia aplicada ao paciente, diferentes tamanhos de amostra, diferentes tipos de neoplasias, etc.) e, por causa dessa fuga de um “padrão”, a qualidade das evidências não permite a afirmação de evidências conclusivas em relação ao assunto. E não para por aí! Tem muita explicação científica e bioquímica por trás dessas conclusões.

Gente, vamos combinar: quem está em tratamento com antineoplásicos, geralmente mal consegue se alimentar, ainda mais manter uma dieta tão restrita como essa! Então, por fim, sabe o que compensa? Ter uma alimentação balanceada! Isso sim vai dar energia suficiente e garantir que o corpo consiga passar pelo tratamento agressivo do câncer sem maiores prejuízos!

Tenha bom senso na hora das escolhas ou, se não souber sobre o assunto, pesquise em locais corretos (artigos científicos com uma metodologia validada por padrões estatísticos e bibliográficos confiáveis, estudos com um bom fator de impacto, etc.) ou procure profissionais que realmente se comprometem com a sua saúde!


Referências

OLIVEIRA, C. L. P.; MATTINGLY, S.; SCHIRRMACHER, R.; SAWYER, M. B.; FINE, E. J.; PRADO, C. M. A Nutritional Perspective of Ketogenic Diet in Cancer: A Narrative Review. Journal of the Academy of Nutrition and Dietetics. 2017. Disponível em: <http://jandonline.org/article/S2212-2672(17)30115-6/fulltext&gt;

http://science.sciencemag.org/content/324/5930/1029

http://cancerres.aacrjournals.org/content/77/4/937

http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/eci.12591/epdf

https://link.springer.com/article/10.1007%2Fs12032-017-0930-5

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